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Biologia

A crise da ciência vai além da crise financeira

Baba Diom, um engenheiro florestal senegalês disse: “Nós iremos conservar somente o que amamos, amaremos somente aquilo que entendemos e entenderemos somente o que nos ensinaram”. Essa frase, difundida entre muitos cientistas da conservação nunca fez tanto sentido quanto agora quando aplicada ao cenário catastrófico em que a ciência nacional mergulha.  A ciência vive um momento de angústia – não que até então tenha sido fácil – nunca foi. Porém, temos hoje indícios de uma extinção de produção científica sem precedentes na história. Cortes de bolsas, financiamentos, extinção de programas de pós-graduação e projetos. Laboratórios às mínguas. Iniciação científica? Não mais. Até mesmo um semestre letivo numa universidade pública foi cancelado. As universidades são naturalmente, celeiros de produção científica. Triste realidade.

No entanto, a crise da ciência vai além da financeira, extrapola os orçamentos enxutos e a inexistência de bolsas de fomento. A ciência vive uma crise existencial. Dificilmente trabalhamos o conceito da ciência em si. Dificilmente ensinamos aos nossos pequenos que aquele inseparável celular só existe graças às mais diversas interações no campo da ciência. Tampouco ressaltamos na mídia que aquele desconforto gástrico pode ser sanado com um simples “antiácido” devido aos esforços de inúmeros cientistas experimentais dos idos de 1800. Não ensinamos, não relacionamos, não expomos, não deixamos suficientemente claro à população no geral, a ciência nossa de cada dia.

A ciência é nossa e para nós. Nós produzimos conhecimento e usfruimos dele para impulsionar nossa qualidade de vida. Diariamente. Ao escovar os dentes e ao observar a transição da paisgem numa estrada. Mas poucos parecem ter “ciência” disso. E aí que Baba Diom em suas palavras nos faz entender essa crise existencial: Não entendemos direito quem são os cientistas, os pesquisadores, nem entendemos o processo, o método, o esmero, os experimentos, as técnicas científicas. Não nos ensinam o poder da ciência, logo, não a compreendemos se não a compreendemos como amá-la? Se não há relação de afeição, apreço, prá quê conservar, preservar, lutar, reinvindicar por algo desconhecido?

Precisamos vencer a crise financeira da ciência com políticas públicas sim, absolutamente – com incentivos de fomento às universidades, ao ensino, à pesquisa e à extensão. Contudo, não podemos mais permitir que a ciência e os cientistas vivam seus projetos, seus esforços, seus resultados encastelados e isolados da sociedade que carece saber da importância da ciência no nosso dia a dia. O verdadeiro cientista aproxima a ciência da rotina das pessoas, com aulas acessíveis, palestras, exposições e projetos nas ruas – trazendo a “ciência da ciência” para dentro das pessoas. Assim, aumentaremos o “efetivo” para lutar pela ciência, pois esse efetivo estará munido com a mais letal das armas: a informação.

Sobre o autor

LETICIA SUEIRO

LETICIA SUEIRO

Pos doc pela Universidade de Granada, Espanha, com o estudo histológico do trato reprodutivo de serpentes Ibéricas. É doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Biotecnologia: Instituto Butantan, Instituto de Pesquisa Tecnológica e Universidade de São Paulo (IB/IPT/USP) sob orientação da Professora Doutora Selma Maria Almeida-Santos, no Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan. Possui graduação em Ciências Biológicas Habilitação: Licenciatura Plena e Bacharelado pela Universidade Federal de Uberlândia (2005), especialização em Gerenciamento Ambiental pela Universidade de São Paulo - ESALQ e aprimoramento profissional do Instituto Butantan no programa Herpetologia Aplicada à Saúde Pública. Possui experiência na área acadêmica em coordenação de curso de extensão universitária e curso de especialização em Conservação e Manejo da Fauna Silvestre. Atua na área de manutenção de serpentes em cativeiro intensivo e semi extensivo para obtenção de dados científicos das espécies avaliadas e Herpetologia com ênfase em Epidemiologia dos Acidentes Ofídicos, além de comportamento, reprodução e ecofisiologia de Viperídeos neotropicais. Participa do Grupo de Estudos em Squamata do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan (http://www.reproducaosquamata.com.br/) e atualmente é coordenadora e professora do curso de Ciências Biológicas da Universidade de Guarulhos (UnG) e ministra aulas presenciais de: Histologia, Anatomia e Fisiologia, Zoologia dos Vertebrados, Hematologia, Parasitologia, Projeto Integrado, Estágio Supervisionado além de aulas em EAD de Epidemiologia e Biossegurança.

Comentários

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  • Parabéns pela colocação, Profª Leticia! É muito desanimador presenciar este momento tão lastimável da nossa ciência, a ciência brasileira, tão importante para os brasileiros, como também para tantos outros povos… Enquanto as autoridades competentes não considerarem a importância em investir no conhecimento científico, certamente continuaremos acompanhando este cenário devastador, que vem a cada dia mais, ceifando profissionais e estudantes com grande potencial, que certamente contribuiriam para o constante crescimento de tal conhecimento…
    Essa realidade atinge em cheio a nós, profissionais e estudantes de Biologia, em sua imensa maioria apaixonados pela ciência da vida! Que venham dias melhores…

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