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Fisica/Matem.

Garimpar Talentos

Jean-Baptiste Joseph Fourier (1768 – 1830) foi um físico e matemático francês que se notabilizou por várias contribuições tanto à Física quanto à Matemática. Destaque para os estudos da condução do calor que tanto auxiliam até hoje engenheiros e arquitetos no dimensionamento de sistemas para controlar as condições ambientais.

Mas o que poucos sabem é que Fourier também foi um administrador e político, sob ordens de Napoleão (1769 – 1821), tendo sido indicado por ele para ser o prefeito do departamento de Isère, cuja sede ou prefeitura é a cidade de Grenoble. Os departamentos são regiões que compreendem várias cidades. Isère localiza-se nos Alpes franceses.

Certa vez, em 1801, enquanto inspecionava as escolas da região, descobriu um garoto de 11 anos que era muito inteligente e particularmente era muito fluente em línguas, a tal ponto que chamava a atenção de colegas e professores. Fourier o convidou para um “bate-papo” em sua casa para conhecer melhor o garoto. Lá o garoto ficou fascinado pela coleção de Fourier de objetos egípcios, conseguidos na expedição de Napoleão ao Egito. De fato Napoleão fundou, no Cairo, o Instituto Egipto, para estudar aquela cultura fantástica, do qual Fourier foi secretário. Uma das funções de Fourier no Instituto Egipto era catalogar os monumentos, principalmente aqueles associados a registros astronômicos, daquela antiga civilização.

Na casa de Fourier o jovem garoto ficou particularmente fascinado com as inscrições hieroglíficas e teria perguntado a Fourier o que significavam. A isso Fourier respondeu que ninguém sabia. O garoto era Jean François Champollion (1790 – 1832) que se tornou linguista, egiptólogo e que decifrou as escritas egípcias antigas. Vinte e sete anos após o encontro na casa de Fourier, quando Champollion viu em detalhes a escrita egípcia, ele pôs os pés no Cairo, seguiu o curso do Nilo, a terra de seus sonhos de infância.

Como ele conseguiu isso?

Com a pedra de Rosetta[1]. Essa pedra descoberta em 1799 por um soldado em um templo no delta do Nilo possuía três textos gravados nela[2]. Na parte superior da pedra um texto em hieróglifos, no centro demótico (outra versão egípcia mais do cotidiano) e na parte inferior grego antigo. Champollion era fluente em grego antigo e pode ler que o texto se referia à coroação de Ptolomeu V na primavera de 196 AEC. Champollion notou que no texto em hieróglifos, na posição análoga na qual o texto em grego citada Ptolomeu, havia um conjunto de símbolos dentro de uma linha fechada oval, uma cártula. Ele presumiu que deveria ser Ptolomeu que estava escrito dentro daquelas cártulas, pois eram muitas as citações diretas a Ptolomeu.

A partir disso resolveu contar quantas palavras havia no texto em grego e quantas havia no texto em hieróglifo, partindo do pressuposto que os textos referiam-se ao mesmo. Notou que a quantidade de palavras era a mesma, tanto em hieróglifos quanto em grego antigo. Por associação Champollion determinou o significado dos símbolos dos hieróglifos.

A confirmação veio de várias formas para Champollion. Em um obelisco em referência a Cleópatra ele pode ver novamente as cártulas, e pode comparar as equivalências entre Ptolomeu e Cleópatra. Em ambos os nomes dois fonemas importantes são o “P” e o “L”. Champollion pode perceber que os mesmos símbolos nas mesmas posições podiam ser vistos em ambos os nomes em hieróglifos.

Imagine a emoção de Champollion olhar aquela escrita no Egito e aqueles monumentos e paredes contarem a ele que histórias retratavam. Milênios mudos agora falavam com ele.

O trabalho de Champollion torna-se a consagração do trabalho de outro físico, o inglês Thomas Young (1773 – 1829), que como também era egiptólogo também tentou decifrar a antiga escrita egípcia.

Graças aos trabalhos dos egiptólogos, e particularmente a dedicação de Champollion, sabemos muita coisa da vida dos antigos egípcios.

Mas e se Fourier não tivesse percebido o brilhantismo daquele garoto de 11 anos? Se não o tivesse estimulado? Champollion foi um diamante bruto garimpado por Fourier.

Com inspiração semelhante existe a ONG Primeira chance (http://www.primeirachance.org/) que contribui para que jovens como Champollion sejam encontrados, estimulados e encaminhados para que tenham acesso a boa educação. No Brasil hoje cinco estados, Ceará, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Santa Catarina e São Paulo, possuem bolsistas dessa ONG. Hoje são 47 bolsistas, sendo que 38 deles estão no estado do Ceará.

Um dos projetos da Primeira Chance é uma plataforma a Garimpar que objetiva identificar estudantes de escolas públicas com grande potencial. As bolsas são para o ensino médio visando, portanto o curso superior. Jovens com até 17 anos, cursando no máximo o 2.o ano do ensino médio, de baixa renda, podem se candidatar. Veja mais em http://www.primeirachance.org/perguntas-frequentes/

Precisamos de muitas iniciativas dessas. Fico muito triste em pensar quantos Champollion’s são desperdiçados todos os dias.

Preste atenção algum Champollion pode estar perto de você.

Veja também http://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2017/01/estudante-cearense-e-aprovado-no-ita-e-no-ime.html

[1] Hoje no museu britânico

[2] Para uma imagem dela veja https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_de_Roseta

Sobre o autor

Sérgio Sato

Sérgio Sato

Professor universitário há 35 anos de Física e Matemática. Avaliador no INEP/MEC. Motociclista. Entusiasta do conhecimento.

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