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Sobre o Ato de Escrever (1)

O Medo da Página em Branco

 

Caros leitores

No início, esta coluna pretendia ter o nome genérico de “Desafios da Língua Portuguesa”, mas vem sendo apresentada com o nome da dificuldade ou desafio abordado em cada artigo.  Sendo assim, o nosso desafio de hoje é sobre o ato de escrever, parafraseando Paulo Freire que escreveu Sobre o Ato de Ler. Escrever e Ler são assuntos correlacionados e muito presentes no dia a dia de cada um de nós.  Quem nunca se deparou com o dilema de como dizer/escrever sobre um determinado assunto, seja um breve bilhete, um relatório de empresa, ou uma dissertação acadêmica?

Na minha prática pedagógica de mais de quarenta anos, deparei-me inúmeras vezes com a queixa de alunos, amigos ou colegas, da angústia de enfrentar uma página em branco e produzir um texto. E com igual frequência escutei o lamento de “não sei, não sou capaz de escrever”, “não tenho habilidade”, “é tão difícil…”  ou, mais dramaticamente, “tenho pavor de encarar a página em branco”. Hoje a síndrome de pânico é bem mais comum do que seria desejável, e em várias situações da vida.

Numa sociedade com um alto índice de criminalidade, guerras, homens-bomba, assaltos, assaltos à mão armada, ou crimes de colarinho branco, meios de comunicação despejando notícias negativas o dia inteiro sobre nossas cabeças, é natural que as pessoas desenvolvam essa e outras síndromes. Mais que lamentável, é muito triste!

─ Como exorcizar o medo?

─ Em qualquer situação em que se instala o medo a solução é reagir. Neste caso a leitura é de grande auxílio ao desenvolvimento da escrita, pois fornece-nos um arsenal de assuntos, de vocabulário mais rico, de frases modelares que podem, e devem, ser usadas como caminho para melhorar a escrita. Claro que treinar, escrever, expor ideias é o que vai viabilizar o processo. Quer aprender a escrever? Escreva. Só se aprende a fazer (seja o que for) fazendo!

A leitura, é primordial fonte de conhecimento, de saber. Ter conhecimento ajuda-nos a fazer melhores escolhas de vida, sejam elas de cunho político, social ou individual. Dá-nos maior capacidade crítica, tornando-nos pessoas melhores e cidadãos mais conscientes. Afinal, nossas escolhas não se refletem apenas em nossas vidas, mas também no mundo circundante. Como então vencer o medo da escrita? Este vai ser o tema de hoje e dos próximos artigos, uma vez que o tema é extenso e necessita de ser saboreado lentamente para ser mais profundamente assimilado.

Para escrever, além do conselho de Pablo Neruda[i], que nos ensinou que é preciso começar com uma letra maiúscula e terminar com um ponto final, eu acrescento que ter um bom repertório de palavras, alguns conhecimentos de sintaxe e muitas ideias, nada mais faz falta. Assim, surge uma nova indagação: como conseguir tudo isso? A leitura fornece-nos temas, e palavras novas que, com a ajuda de um bom Dicionário (para esclarecer significado e emprego) e de uma boa Gramática (para as normas e regras), nos permitem construir novas ideias e firmar opiniões.

Então, o texto acontece! A mão desliza tranquila sobre o papel, pois temos alguma coisa a dizer, sabemos escolher as palavras adequadas, cumprimos as normas da língua e nossos leitores se deleitarão. Prazer é essencial. O de escrever e o de ler!

O que é um bom Dicionário? Uma boa Gramática? Aqueles que atendem às necessidades das minhas dúvidas. Saber todos os significados que uma palavra comporta para usá-la de acordo com a intencionalidade do que quero expressar, seja um sentimento, uma ideia, ou uma opinião. Não preciso de saber de cor todos os significados de cada palavra, mas preciso que a consulta ao dicionário me diga se estou usando, com propriedade, tal palavra. Quanto à gramática, ela me responde a dúvidas sobre a colocação do termo usado, no contexto adequado. Se o tempo verbal, a preposição ou conjunção estão ao serviço do que pretendo afirmar, na posição correta da frase e o que acontece se não os colocar no lugar certo. Se devo, ou não usar um artigo e se o adjetivo ou advérbio estão, realmente, ao serviço do meu pensamento e se tornam a minha ideia expressiva. Da leitura, devo dizer que, além dos benefícios anteriormente apresentados, é elucidativa sobre os mais variados ângulos de um mesmo assunto. Roland Barthes[ii] disse um dia que se uma universidade tivesse de eliminar todas as disciplinas de todos os cursos e deixar apenas uma –  a Literatura – esta atenderia a qualquer tipo de conhecimento, da medicina à matemática, passando pelo conhecimento das línguas, da biologia, da história ou da geografia. Isto é, a literatura contém todo o tipo de conhecimento e está ao alcance de todos. É só pegar um livro e ler!

Como quer um estudante ir bem numa redação de vestibular se ele não tem domínio do assunto sobre o qual deverá falar? Normalmente são assuntos presentes em jornais, revistas de atualidade, ou livros indicados durante o processo escolar, mas que o estudante não se deu ao trabalho de ler e então, vê-se diante da proposta da prova, vazio de conteúdo. O mesmo vale para uma dissertação de mestrado ou defesa de uma tese. Como se pode debater um tema, apresentar uma ideia nova, se nunca se ouviu falar, se não se tem conhecimento algum sobre o que foi dito, escrito, discutido a respeito daquele assunto?

Vou ficar por aqui, Leitor amigo e, como os escritores do século XIX, que chamavam seu possível leitor para um diálogo, insisto com você, meu Leitor, e aguardo sua opinião, perguntas e críticas.

Este é o primeiro de vários artigos em que pretendo abordar algumas técnicas de escrita, dirigidas a quem quiser escrever, seja por obrigação, por necessidade, ou pelo simples prazer de escrever, mas que ainda se intimida diante da folha de papel.

Enquanto não chegam os próximos artigos, que tal ir treinando a escrita? O Carnaval está aí e dá um bom tema de dissertação. Quem vai tentar?

Bom Carnaval. Até breve!

[i] Não se trata de uma citação formal, daí a falta de referências bibliográficas.

[ii] Roland Barthes, semiólogo francês, falou sobre isso numa aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio de França, proferida em 7 de janeiro de 1977, posteriormente publicada e traduzida em várias edições e países. Título original: Leçon.

Sobre o autor

Celeste Baptista

Celeste Baptista

Professora de Português e de Francês, formada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa (UL). Pedagoga com habilitação em Administração Escolar, Supervisão de Ensino e Orientação Educacional. Psicóloga (com Licenciatura e Bacharelado). Mestre em Linguística Letras e Artes pela Universidade Guarulhos (UnG). Especialização em Psicologia Jurídica (UniSãoPaulo). Autora do livro Chuva Quente (Poesia). Palestras sobre Literatura, Ética e temas da Psicologia. Nas horas vagas leio, escrevo, organizo Rodas de Leitura e Recitais, converso com amigos, bordo e faço crochê. Criei um blog: Como Árvores Antigas https://cilebap.blogspot.com.br/, onde escrevo sobre diversos assuntos. Podem achar-me no Facebook, como Celeste Baptista, no Linkedin como Celeste Duarte Baptista e no Instagran: https://www.instagram.com/baptistaceleste/

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