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VERBOS VER e VIR

Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
Mas eu vim de lá pequenininho
Alguém me avisou
Pra pisar nesse chão devagarinho

Alguém me avisou
Pra pisar nesse chão devagarinho

Alguém me avisou, Dona Ivone Lara

 

A maioria de nós já escutou a canção de D. Ivone Lara, nas mais diversas versões e até a cantarolou, em casa, no carro ou em qualquer outro lugar. É uma dessas canções que popularmente designamos de “música chiclete”, pois ela gruda no ouvido e teima em não sair de lá, por isso a escolhi para ilustrar o assunto de hoje.

Frequentemente escutamos frase como:

— Se eu ver o João dar-lhe-ei o seu recado.

— Se a Valéria vir a minha casa…

Por favor, não as repita. Ambas estão erradas!

Na segunda frase, não estamos pensando na ideia de Valéria olhar (VER) para a minha casa e gostar ou não dela, achar que é grande ou pequena, mas no sentido de Valéria se deslocar (VIR) até minha casa para me fazer uma visita de cortesia ou por qualquer outro motivo.

Como ficariam as frases, diante das situações apresentadas (VER x VIR), usadas corretamente? Teremos:

— Se eu vir (do verbo VER) o João dar-lhe-ei o seu recado!

— Se a Valéria vier (verbo VIR) a minha casa e eu a vir (verbo VER) ficarei contente.

Como você pôde ver, na segunda frase utilizei, de forma correta, os verbos vir e ver. Soou estranho? Talvez! De tanto escutarmos as frases erradas, espanta-nos seu uso correto! E onde entram os versos de D. Ivone Lara que nos serviram de epígrafe?[1]

Na frase “eu vim de lá…” temos o verbo VIR conjugado na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, que indica uma ação praticada no passado e finalizada. O sujeito eu, praticou uma ação de deslocamento de um lugar para o outro e chegou onde queria e essa ação foi praticada no passado (pretérito) em relação ao momento da fala, como se tivesse dito: Ontem (ou em outro tempo qualquer do passado) vim de (não importa de que lugar).

Quem nunca escutou a fase: “eu preciso vim aqui amanhã”? A frase correta é: “Eu preciso de vir aqui amanhã.”

Falar sobre a verbos é um tema bastante complexo. Os verbos são palavras variáveis. Podemos afirmar que são as mais variáveis da língua, pois variam em modo, tempo, número, pessoa, conjugação e voz. Os verbos podem ser regulares, quando o radical se mantém ao longo da conjugação (em todos os tempos) e irregulares, quando se altera o radical.

Para abordar todos estes aspectos, precisaríamos de escrever um longo e cansativo artigo, portanto, vamos abordar a questão em doses homeopáticas. Para hoje, vamos fixar-nos em alguns aspectos irregulares dos verbos VIR e VER. Comecemos por diversas frases em que os verbos aparecem na sua forma correta. Lembre-se delas quando for construir suas próprias frases e entenda a conjugação apresentada no quadro abaixo.

Frases e comentários:

  • Quando a gente se vir devolverei seus livros (verbo ver)
  • Se os amigos vierem (verbo vir) e virem (verbo ver) as minhas obras de arte, por certo ficarão encantados.
  • Vim (pret. perfeito do verbo vir) aqui para te ver!
  • Vir a minha casa e não querer me ver (infinito impessoal) é um absurdo!
  • Ontem vim aqui com uns amigos, mas fomos mal recebidos.
  • Ficarei muito contente se o vir (verbo ver) quando você vier

 

Observe os quadros abaixo:

 

VERBO VIR VERBO VER
Pretérito Perfeito Futuro do Subjuntivo Infinitivo Pessoal Pretérito perfeito Futuro do Subjuntivo Infinitivo Pessoal
Eu vim vier Vir Eu vi vir ver
Tu vieste Vieres vires Tu viste vires veres
Ele/ Ela veio Vier vir Ele/Ela viu vir ver
Nós viemos Viermos virmos Nós vimos virmos vermos
Vós viestes Vierdes virdes Vós vistes virdes verdes
Eles/Elas vieram vierem virem Eles/Elas viram virem verem

 

Sabendo que futuro do subjuntivo se forma, do infinitivo impessoal mais as terminações r, res, r, rmos, rdes, rem, podemos constatar que os verbos VIR e VER, que são irregulares, apresentam alterações do radical (colunas em realce).

A seguir apresento-lhes, a título de esclarecimento, mais alguns aspectos dos verbos em questão:

VIR – modo infinitivo do verbo que pode ser usado em conjunto com outros verbos ou sozinho.

  • Vir de longe a pé é muito cansativo.
  • Vir a São Paulo e não enfrentar trânsito é quase um milagre!
  • Vir de bicicleta em dias de chuva é perigoso.
  • Você não tem motivo algum para não vir à minha festa.
  • Eles devem vir no horário marcado.

VIR – no pretérito perfeito do indicativo:

  • Sempre vim assistir aos jogos com amigos.
  • Ontem vim aqui, e não encontrei você.
  • Vim para lhe dizer que quero desfazer o contrato.
  • Vim hoje mais cedo para me despedir
  • Vim por causa da vaga de emprego.

VER – modo infinitivo

  • Ver tanta desgraça e nada fazer é muito triste.
  • Vim ver o que você queria (aqui usamos os dois verbos: vir no pret. Perfeito e ver no infinito impessoal)

VER – no futuro do subjuntivo

  • Se eu vir resultados positivos, você receberá um aumento.
  • Se ele vir a falência decretada, terá um enfarte (=infarto, enfarto).
  • Quando eu vir o resultado das pesquisas pensarei na melhor solução para o caso.

Poderíamos continuar esta breve dissertação sobre o tema, mas não pretendo cansar os meus queridos leitores. Até breve.

[1] Epígrafe = Sf frase ou citação que encabeça uma produção escrita. Borba, Francisco S (Org.). Dicionário UNESP do Português Contemporâneo. São Paulo, UNESP, 2004. Obs: Esta é a 1ª edição deste dicionário, editada antes da Reforma Ortográfica. Para quem pretender adquirir um exemplar recomendo que busque edições mais recentes.

Sobre o autor

Celeste Baptista

Celeste Baptista

Professora de Português e de Francês, formada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa (UL). Pedagoga com habilitação em Administração Escolar, Supervisão de Ensino e Orientação Educacional. Psicóloga (com Licenciatura e Bacharelado). Mestre em Linguística Letras e Artes pela Universidade Guarulhos (UnG). Especialização em Psicologia Jurídica (UniSãoPaulo). Autora do livro Chuva Quente (Poesia). Palestras sobre Literatura, Ética e temas da Psicologia. Nas horas vagas leio, escrevo, organizo Rodas de Leitura e Recitais, converso com amigos, bordo e faço crochê. Criei um blog: Como Árvores Antigas https://cilebap.blogspot.com.br/, onde escrevo sobre diversos assuntos. Podem achar-me no Facebook, como Celeste Baptista, no Linkedin como Celeste Duarte Baptista e no Instagran: https://www.instagram.com/baptistaceleste/

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